Society for Prevention Research 2025
Podem os laços com os pais e professores predizer a frequência escolar de adolescentes condenados por crimes graves? (Poster)
Sumário
Estudos longitudinais têm demonstrado que o absentismo escolar é um precursor desenvolvimental de outros fenómenos prejudiciais, como o abandono escolar, o baixo desempenho académico, doenças e comportamento criminal. No entanto, a investigação centrada no estudo dos preditores das mudanças na assiduidade/absentismo escolar ao longo do desenvolvimento é relativamente escassa, particularmente entre alunos com problemas do comportamento. Fatores familiares e escolares têm sido identificados como potenciais correlatos na literatura. Além disso, em consonância com a teoria do autocontrolo (Gottfredson & Hirschi, 1990), quando a família “falha”, os fatores escolares podem ser particularmente relevantes na promoção de comportamentos conformes, como a frequência regular da escola.Assim, o presente estudo examinou se a hostilidade materna, o afeto materno e a qualidade da relação aluno-professor predizem mudanças desenvolvimentais na assiduidade escolar. Recorrendo à amostra do estudo Pathways to Desistance, contando com 1 354 jovens dos 14 aos 19 anos condenados por um crime grave, testaram-se três modelos longitudinais com defasagem cruzada, um para cada fator preditor: calor maternal, hostilidade maternal e vínculo professores-aluno. Os resultados preliminares do estudo usando este método apoiaram parcialemnte a hipótese de que o afeto maternal prediz alterações nos padrões de frequência escolar e também de um impacto recíproco entre frequência escolar e hostilidade maternal ao longo da adolescência. Dado que estes resultados foram ainda preliminares, o estudo foi continuado e aprimorado (usando uma abordagem ligeiramente diferente), estando atualmente terminado e em processo de submissão para publicação.
De facto, estas parcerias estabelecendo-se do “de-dentro” da comunidade, têm como característica a condução por parte da comunidade, vista enquanto um conjunto de organizações, pessoas e práticas. A implicação disto é que o que é aceite como evidência ou evidência de alta qualidade, tem que ser redefinido no contexto destas coligações e das perspetivas da comunidade. A forma como os dados são analisados e os resultados são apresentados de forma a serem considerados “cientificamente válidos”, cumprem regras que não são as mesmas regras que valem no mundo da prática e da definição de políticas. A evidência científica tem de continuar a fazer parte, mas esta é apenas uma das “partes”. Relacionado com isto, a questão de atrair financiamento para práticas e projetos de prevenção dos problemas e promoção do bem-estar humanos, no mundo de hoje, em muito depende da construção destas coligações, com a participação ativa dos atuais e potenciais investidores. Foi sublinhado que os “novos investidores” dos projetos de prevenção (empresas e pessoas de elevado estatuto socioeconómico com poder a nível local), perspetivam a avaliação de resultados de uma forma distinta da que os cientistas da prevenção e avaliação de programas educativos para o impacto social vêm.
Como disse David Hawkins (um cientista social extremamente influente) “eles precupam-se mas não da mesma maneira que nós”. Neste âmbito, sublinhou-se a criação de modelos de obrigações para o impacto social (ver exemplo) sustentadas na evidência científica – o setor privado investe nestes projetos de prevenção com risco de falhanço, no entanto, quando os resultados são benéficos e os problemas sociais realmente se conseguem prevenir, atestando-se com a evidência científica, então, o Estado do país ou o governo local ou a câmara municipal, cobrem o investimento feito pelo privado, passando-se depois a reinvestir o capital para que o prática possa escalar. Note-se que estavam presentes neste encontro cientistas de renome como Richard Lerner, David Hawkins e o já citado Catalano. Estavam também presentes representantes de autoridades de governo local dos EUA. Todos concordaram com esta visão. Logo, não se trata de demonstrar o meu agrado sobre isto, mas de reportar o que cientistas aplicados com vastos anos de experiência neste trabalho de coligações definem como caminhos de sucesso.
Tive ainda oportunidade de assistir a painéis sobre estatística avançada em estudos longitudinais intensivos, marcou-me em especial a apresentação por Swei Liu “Using Reactivity As a Predictor of Health and Well-Being: A Bias-Corrected Two-Stage Path Analysis Approach”, no qual os Empirical Bayes da relação entre preditor e outcome foram modelados como variáveis latentes para os random effects num growth model para estimar a variablidade entre pessoas na associação temporal entre reatividade emocional e a trajetória de indicadores de saúde ao longo de vários dias.
Alguns destes programas são o PlayReadVIP, o Family Check-up, o Smart Begginings (uma integração dos dois anteriores), e o Text4Baby. A escolha de cada programa tem que ver com os recursos/pontos fortes e os riscos/desafios de cada família, com os programas mais intensos a serem alocados às famílias com acumulação de desafios e vulnerabilidades.
Alguns resultados marcantes apresentados na conferência por Allan Mendeson, Daniel Shaw e Caitlin Canfield no painel dedicado a esta temática, incluíram:- três anos após a intervenção do Smart Begginings Program (implementado entre os 0-3 anos), as crianças que receberam o programa em contexto de consulta pediátrica revelaram melhores resultados na leitura, atenção e comportamentos de indisciplina (aos 6 anos) do que controlos;
- o modelo integrado de prestação de serviços segmentado por níveis conseguiu alcançar 83% de adesão (aceitabilidade) por parte das famílias, com uma percentagem ainda mais alta para as famílias com adversidade extrema – um facto louvável dado que neste tipo de programas é difícil obter adesão das famílias
- o método Delphi pode e deve ser utilizado neste domínio para que os pediatras e médicos de família possam escolher como usar diferentes tipos de programas deste tipo vistos enquanto práticas de promoção da “saúde relacional”.
Talvez ainda mais impactante tenha sido a minha passagem no painel organizado pelo HEDCO Institute, intitulado “Advances in Rigorous and Relevant Systematic Reviews of the Prevention Science Literature“. Dado o horário desta sessão (13h15m), logo a seguir ao almoço, esta poderia ter sido uma sessão perfeita para a sesta e o entorpecimento. Mas não foi. Precisamente pelo contrário. Foi provavelmente a sessão mais impactante para mim, providenciando informação e conhecimento nas sínteses de evidência como método de maior qualidade para “fechar” o hiato que existe entre a produção de conhecimento científico e a sua utilização na prática, em especial relativamente às Ciências da Educação e os contextos escolares.
Ouvi falar pela primeira vez em “revisões sistemáticas vivas” por Sean Grant e em “produtos de tradução de ciência” por Elizabeth Day; esta última também comunicou resultados dum estudo que demonstra um desencontro grande entre o que os educadores precisam de encontrar nos artigos científicos para informar e transformar as suas práticas, e o que realmente é reportado geralmente nestes artigos. O ponto fundamental, rematado por Elizabeth Tanner-Smith (no momento, Diretora Executiva do Instituto, com a qual tive oportunidade de conversar) é que os cientistas possam gerar “recomendações a tempo” para os potenciais utilizadores do conhecimento científico, em particular decisores – sejam eles políticos, diretores escolares ou outros.Uma vez que as revisões sistemáticas tradicionais e as meta-análises demoram geralmente 2-3 anos a concluir, a solução passa por uma atualização contínua dos resultados com a criação de um sistema semi-automatizado (com assistência da IA) de vigilância de novas publicações que possa levar a que os resultados sejam também eles constantemente atualizados e se possa providenciar a melhor evidência possível a quem decide. Um passo essencial, dizia ela, para democratizar a ciência.
Houve ainda tempo para celebrar mais uma importante conquista na carreira, visitando a famosa Space Needle – épico!