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Society for Prevention Research 2025

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No final de Maio de 2025, tive uma longa viagem  do Kentucky rumo a Seattle, no Estado de Washington, batendo novamente o meu recorde do ponto mais a Oeste do mundo no qual tinha já tinha estado.  Esta conferência foi um marco para mim. Em primeiro lugar, porque há muitos anos ansiava por ter contactos mais próximos com as Ciências da Prevenção, uma disciplina extremamente aplicada, que me cativa. Em segundo lugar, de todas as conferências científicas nacionais e internacionais que tive oportunidade de frequentar até ao momento, esta foi aquela com a qual mais me identifiquei em termos da minha identidade como investigador, talvez pelo ênfase nas implicações e na utilização das ciências sociais no mundo real e na prática quotidiana. O trabalho que apresentei, apesar de ser um trabalho observacional (isto é, não se trata de uma intervenção) veio então alinhado nesse intuito da ciência com implicações práticas claras.

Podem os laços com os pais e professores predizer a frequência escolar de adolescentes condenados por crimes graves? (Poster)

Sumário

Estudos longitudinais têm demonstrado que o absentismo escolar é um precursor desenvolvimental de outros fenómenos prejudiciais, como o abandono escolar, o baixo desempenho académico, doenças e comportamento criminal. No entanto, a investigação  centrada no estudo dos preditores das mudanças na assiduidade/absentismo escolar ao longo do desenvolvimento é relativamente escassa, particularmente entre alunos com problemas do comportamento. Fatores familiares e escolares têm sido identificados como potenciais correlatos na literatura. Além disso, em consonância com a teoria do autocontrolo (Gottfredson & Hirschi, 1990), quando a família “falha”, os fatores escolares podem ser particularmente relevantes na promoção de comportamentos conformes, como a frequência regular da escola.

Assim, o presente estudo examinou se a hostilidade materna, o afeto materno e a qualidade da relação aluno-professor predizem mudanças desenvolvimentais na assiduidade escolar. Recorrendo à amostra do estudo Pathways to Desistance, contando com 1 354 jovens dos 14 aos 19 anos condenados por um crime grave, testaram-se três modelos longitudinais com defasagem cruzada, um para cada fator preditor: calor maternal, hostilidade maternal e vínculo professores-aluno. Os resultados preliminares do estudo usando este método apoiaram parcialemnte a hipótese de que o afeto maternal prediz alterações nos padrões de frequência escolar e também de um impacto recíproco entre frequência escolar e hostilidade maternal ao longo da adolescência. Dado que estes resultados foram ainda preliminares, o estudo foi continuado e aprimorado (usando uma abordagem ligeiramente diferente), estando atualmente terminado e em processo de submissão para publicação.

Para além da minha apresentação, pude estar presente numa mesa redonda promovida pela presidência da Society for Prevention Research, de onde ressaltou a ideia de “coligações para a prevenção”. Nestas coligações, os investigadores são apenas um grupo de atores, entre outros grupos de atores, incluindo os profissionais do terreno, os legisladores e os políticos locais e nacionais ou supranacionais. Neste triângulo, as práticas de prevenção e a sua respetiva avaliação são co-criadas e os investigadores não têm necessariamente o papel de “coordenadores” ou “impulsionadores”.

De facto, estas parcerias estabelecendo-se do “de-dentro” da comunidade, têm como característica a condução por parte da comunidade, vista enquanto um conjunto de organizações, pessoas e práticas. A implicação disto é que o que é aceite como evidência ou evidência de alta qualidade, tem que ser redefinido no contexto destas coligações e das perspetivas da comunidade. A forma como os dados são analisados e os resultados são apresentados de forma a serem considerados “cientificamente válidos”, cumprem regras que não são as mesmas regras que valem no mundo da prática e da definição de políticas. A evidência científica tem de continuar a fazer parte, mas esta é apenas uma das “partes”. Relacionado com isto, a questão de atrair financiamento para práticas e projetos de prevenção dos problemas e promoção do bem-estar humanos, no mundo de hoje, em muito depende da construção destas coligações, com a participação ativa dos atuais e potenciais investidores. Foi sublinhado que os “novos investidores” dos projetos de prevenção (empresas e pessoas de elevado estatuto socioeconómico com poder a nível local), perspetivam a avaliação de resultados de uma forma distinta da que os cientistas da prevenção e avaliação de programas educativos para o impacto social vêm.

Como disse David Hawkins (um cientista social extremamente influente) “eles precupam-se mas não da mesma maneira que nós”. Neste âmbito, sublinhou-se a criação de modelos de obrigações para o impacto social (ver exemplo) sustentadas na evidência científica – o setor privado investe nestes projetos de prevenção com risco de falhanço, no entanto, quando os resultados são benéficos e os problemas sociais realmente se conseguem prevenir, atestando-se com a evidência científica, então, o Estado do país ou o governo local ou a câmara municipal, cobrem o investimento feito pelo privado, passando-se depois a reinvestir o capital para que o prática possa escalar. Note-se que estavam presentes neste encontro cientistas de renome como Richard Lerner, David Hawkins e o já citado Catalano. Estavam também presentes representantes de autoridades de governo local dos EUA. Todos concordaram com esta visão. Logo, não se trata de demonstrar o meu agrado sobre isto, mas de reportar o que cientistas aplicados com vastos anos de experiência neste trabalho de coligações definem como caminhos de sucesso.

Tive ainda oportunidade de assistir a painéis sobre estatística avançada em estudos longitudinais intensivos, marcou-me em especial a apresentação por Swei Liu “Using Reactivity As a Predictor of Health and Well-Being: A Bias-Corrected Two-Stage Path Analysis Approach”, no qual os Empirical Bayes da relação entre preditor e outcome foram modelados como variáveis latentes para os random effects num growth model para estimar a variablidade entre pessoas na associação temporal entre reatividade emocional e a trajetória de indicadores de saúde ao longo de vários dias.

Surpreendi-me também com as apresentação dos programas de visitas domiciliárias e de promoção precoce da literacia em contexto pediátrico e/ou de medicina comunitária. Estamos a falar de programas que prestam serviços às famílias em contextos de desvantagem socioecónomica, desde muito cedo, no pré-natal, nos primeiros 3 anos de vida, para com isso fazerem a diferença ao longo do percurso de vida das crianças. Nos Estados Unidos, há Estados que implementam vários modelos destes programas. Daniel Shaw apresentou um modelo integrado com diversos níveis de serviço implementado na cidade de Pittsburgh, segundo o qual, para diferentes tipos de necessidades das famílias (“segmentos” da população), se alocaram diferentes tipos de programas com evidências científicas de sucesso.

Alguns destes programas são o PlayReadVIP, o Family Check-up, o Smart Begginings (uma integração dos dois anteriores), e o Text4Baby.  A escolha de cada programa tem que ver com os recursos/pontos fortes e os riscos/desafios de cada família, com os programas mais intensos a serem alocados às famílias com acumulação de desafios e vulnerabilidades.

Alguns resultados marcantes apresentados na conferência por Allan Mendeson, Daniel Shaw e Caitlin Canfield no painel dedicado a esta temática, incluíram:
  1. três anos após a intervenção do Smart Begginings Program (implementado entre os 0-3 anos),  as crianças que receberam o programa em contexto de consulta pediátrica revelaram melhores resultados na leitura, atenção e comportamentos de indisciplina (aos 6 anos) do que controlos;
  2. o modelo integrado de prestação de serviços segmentado por níveis conseguiu alcançar 83% de adesão (aceitabilidade) por parte das famílias, com uma percentagem ainda mais alta para as famílias com adversidade extrema – um facto louvável dado que neste tipo de programas é difícil obter adesão das famílias
  3.  o método Delphi pode e deve ser utilizado neste domínio para que os pediatras e médicos de família possam escolher como usar diferentes tipos de programas deste tipo vistos enquanto práticas de promoção da “saúde relacional”.

Talvez ainda mais impactante tenha sido a minha passagem no painel organizado pelo HEDCO Institute, intitulado “Advances in Rigorous and Relevant Systematic Reviews of the Prevention Science Literature“. Dado o horário desta sessão (13h15m), logo a seguir ao almoço, esta poderia ter sido uma sessão perfeita para a sesta e o entorpecimento. Mas não foi. Precisamente pelo contrário. Foi provavelmente a sessão mais impactante para mim, providenciando informação e conhecimento nas sínteses de evidência como método de maior qualidade para “fechar” o hiato que existe entre a produção de conhecimento científico e a sua utilização na prática, em especial relativamente às Ciências da Educação e os contextos escolares.

Ouvi falar pela primeira vez em “revisões sistemáticas vivas” por Sean Grant e em “produtos de tradução de ciência” por Elizabeth Day; esta última também comunicou resultados dum estudo que demonstra um desencontro grande entre o que os educadores precisam de encontrar nos artigos científicos para informar e transformar as suas práticas, e o que realmente é reportado geralmente nestes artigos. O ponto fundamental, rematado por Elizabeth Tanner-Smith (no momento, Diretora Executiva do Instituto, com a qual tive oportunidade de conversar) é que os cientistas possam gerar “recomendações a tempo” para os potenciais utilizadores do conhecimento científico, em particular decisores – sejam eles políticos, diretores escolares ou outros.

Uma vez que as revisões sistemáticas tradicionais e as meta-análises demoram geralmente 2-3 anos a concluir, a solução passa por uma atualização contínua dos resultados com a criação de um sistema semi-automatizado (com assistência da IA) de vigilância de novas publicações que possa levar a que os resultados sejam também eles constantemente atualizados e se possa providenciar a melhor evidência possível a quem decide. Um passo essencial, dizia ela, para democratizar a ciência.

Houve ainda tempo para celebrar mais uma importante conquista na carreira, visitando a famosa Space Needle – épico!

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