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Bairro do Cerco do Porto

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Nestas precisas coordenadas, iniciei o meu percurso profissional, enquanto interventor. Foi aqui que a minha vida mudou. Assumo-me como um aficionado pelo bairro do Cerco do Porto, seu espaço, história, cultura, gentes, narrativas, desafios e vivências. Esta atitude começa a desenvolver-se, em outubro de 2016, quando, pela primeira vez, pus os pés no Bairro, aspirando sentir e pensar o seu genius loci (como diria Norberg-Schulz). Hoje, sinto ser também um bocadinho do Cerco.

A informação sobre a origem urbanística do Bairro do Cerco do Porto que se segue abaixo é retirada dum estudo elaborado em 2017. Realizei este estudo durante o meu Mestrado em Criminologia, como parte dum trabalho de investigação na Unidade Curricular de Urbanismo & Morfologia Urbana, no qual fiz a análise morfogenética do Bairro do Cerco do Porto e áreas envolventes, incluindo o levantamento de centenas de edifícios e a elaboração de mapas. Para mais informações sobre este estudo, os mapas realizados ou temas relacionados, por favor entra em contacto comigo.

“Situado entre os aguçados vales do rio tinto e do rio torto, o local caracteriza-se por uma topografia complexa e declivada devido à evolução milenar do traçado do rio Douro. Muitos dos seus afluentes passam na zona e estão hoje encanados, desviados ou eliminados; assim, se explica a paisagem altamente declivada, com variações consideráveis em nível e altitudes.
O miolo da área comunitária em análise (S. Roque, Maceda e Bairro do Cerco) e o sítio específico de implantação dos atuais bairro do Cerco, Cooperativa de Habitação Económica do Ilhéu e do Centro de Formação do IEFP, além da sua estrutura fundiária agrícola irregular e de múltiplos recortes que nos são permitidas ver ainda em foto levantamentos aéreos de fins de 1930’ e em 1940’, foi efetivamente um dos redutos principais de preservação de mata natural que durou até mais tarde, uma das réstias florestais de pinheiro-bravo espontâneo no panorama global da urbe do Porto com uma mata de pinheiros abundante.
A floresta de pinheiro-bravo inseria-se numa estrutura fundiária pouco clara e algo irregular. Era o pinheiro que realmente caracterizava a área e certamente que os poucos grupos humanos a ela ligados não permitiram o seu esquecimento, daí que “Pinheiro Grande” seja a denominação atribuída a uma rua, uma travessa e uma “casa” (onde atualmente se desenvolve o projeto comunitário “Cercar-te”) na comunidade. Os vestígios desta zona florestada podem ser ainda encontrados defronte da Escola Primária do Cerco, junto à Rua do Cerco do Porto.
A génese do processo de urbanização deste sítio está ligada, em primeira mão, ao processo de industrialização, a instituição das grandes indústrias fora do núcleo do Porto, que importava libertar e descongestionar a partir de meados de Oitocentos (clarificação das vias de comunicação). As edificações mais vetustas que aqui encontramos terão servido a habitação do operariado para estas indústrias que ali se instalavam. (…) para o núcleo construído Maceda- S. Roque, é possível ver que as habitações, as ilhas e o Bairro de Casas Económicas do Ilhéu (atravessando para Norte a Rua de S. Roque) estão colocadas à volta das fábricas que aí existiam: a Fábrica de fiação e torcedura de algodão de Rocha & Sobrinho (agora, edifício devoluto) e a Fábrica de sacos de papel de José Rodrigues (atualmente com outros usos).
No nexo da evolução e crescimento do Porto, as indústrias arrastaram-se à periferia rural, trazendo o Porto a este sítio; impostas neste sítio, em locais estratégicos, nomeadamente, junto às principais artérias de circulação da cidade (caso das indústrias no limite Nordeste, encostadas à Circunvalação) ou arruamentos de grande importância funcional (caso das velhas fábricas de fiação e sacos de papel), proveram a que o fluxo de movimentos e a necessidade de mão-de-obra também se deslocassem à periferia. Agarrando-se a uma dessas artérias – a Rua de S. Roque da Lameiro – o primeiro passo de urbanização da área remontará às primeiras décadas do século XX , eis que eclode a habitação para suprir as necessidades dos operários, para lhes consignar ali um habitat próximo da zona de trabalho, sem necessidade de deslocações maiores. Será este caráter industrial da área que futuramente irá condicionar a morfologia e a estrutura deste tecido. Dá-se o surgimento de ilhas contíguas às primeiras fábricas emergentes.
A construção do Bairro do Cerco do Porto iniciou-se em 1961 e foi terminada em 1964 na sua primeira fase, com a construção de 32 blocos de habitação multifamiliar. Ele resulta do “Plano de Melhoramentos” (1956) da autarquia do Porto, financiada em parte ainda pelo Estado Novo. O Plano de Melhoramentos encaixava-se no Plano Regulador de Antão Garrett e é a partir dele que a construção em bloco multifamiliar passa a marcar profundamente a paisagem da cidade e, sobretudo, dos seus arredores, num sítio que pertencia ao denominado “cinturão verde” do Porto (Cardoso, 2010; Oliveira, 1973).
É o bloco a tipologia de edificado com maior expressão na área em estudo, onde a maior parte da comunidade reside; é ele que a domina. Este cinturão verde do Porto era uma área na qual reinavam os espaços livres (sobretudo, os verdes); estava livre de edificação e continha apenas resquícios de atividades secundárias e terciárias. Possuindo manchas puramente agrícolas (função do espaço sobretudo do setor primário) e espaços de circulação advindos de traçados pré-existentes (e.g. Rua de S. Roque da Lameira), esta área conectava a cidade à região e a outras cidades mas até meados do século XX a urbanização parecia ter saltado esta faixa, tal como a concentração de população. Foi para o “recente” problema de dar casa a uma população em crescendo exponencial no Porto, sobretudo, o crescimento da população de baixo estatuto social e económico que se viu nestas áreas a “luz ao fundo do túnel” (Cardoso, 2010; Oliveira, 1973).
Mapa criado em ArcGIS (Tiago Lobo-Dos-Santos)
Em síntese, começa como velho sítio rural e floresta de pinheiros, de parcelar irregular e função predominantemente agrícola; pequenas/médias quintas e lavouras no seu interior valiam-se das ruelas e vias agrícolas estreitas e com um risco que afinava com os declives difíceis para cruzar os pequenos algomerados rurais de casas de lavoura nos lugares de Tirares e Pego Nêgro entre os séculos XVII e meados XIX. Com o surto industrial, por via dos braços de extensão da cidade do Porto, pelos eventos do Cerco do Porto e, sobretudo, pela proximidade com a linha de carris Minho-Douro, qual artéria-viva, vê-se nascer um pólipo urbano na zona Maceda-S.Roque, faceando a rua de de S. Roque da Lameira e criando habitação para um grupo de trabalhadores que serviam as indústrias recém instaladas na periferia (inícios do século XX). As ilhas inscrevem-se no sítio onde começa a urbanizar-se e deixam a marca do processo de urbanização: são parte da sua génese, apregoam-se mesmo ali ao lado do sítio das antigas fábricas.
(…)
O bairro do Cerco ergue-se em reboco, adaptando-se pela matéria-prima por excelência da Invicta – o granito – e em blocos. Formas e materiais que exprimem ex aequo a preocupação em “gastar pouco”, “dar habitação a muitos”, adaptação à superfície declivada do vale do rio Tinto; no mesmo movimento, os blocos do bairro da PSP são construídos. A velha área florestada (entre 1960-1970) desaparecia dando lugar a um lugar de habitação social em altura implantada em ajardinamentos simplistas, enclausurado por grandes vias de comunicação, pouco amiga do peão. O peão encontra-se preso e com poucas possibilidades de mobilidade em relação à cidade em resultado da morfologia do bairro do Cerco.”

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