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American Society of Criminology 2023

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Sempre sonhei estar ali, na American Society of Criminology (Associação Científica de Criminologia de maior prestígio a nível mundial). Em novembro de 2023, deu-se a minha estreia a apresentar nos grandes palcos da Criminologia Internacional com 3 apresentações (o habitual é um investigador apresentar 1 comunicação por conferência). Estas foram as apresentações:  

Da saúde pré/perinatal à sensibilidade do adolescente ao comportamento antissocial? (Poster)

Sumário

Belsky e Pluess (2009) argumentaram que o stress durante a gravidez aumenta a sensibilidade das crianças. O stress pré-natal aumenta as chances de baixo peso neonatal (BPN) e prematuridade (Lockwood & Kuczynski, 2001), sendo estes estudados como um fator de risco desenvolvimental para comportamento antissocial (CA), especialmente o BPN (Tzoumakis & Cale, 2019). No entanto, o BPN não é um indicador fiável da saúde fetal ou de saúde do recém-nascido (Damhuis et al., 2021). Tzoumakis e Cale (2019) relataram resultados mistos em estudos sobre BPN e delinquência.

O peso neonatal/prematuridade pode ter uma relação curvilinear com o CA, mediada pelo traço de sensibilidade (Aron & Aron, 1997). Procurámos uma melhor compreensão destas relações desenvolvimentais. Utilizando os dados do estudo “Crime Causation” (Glueck & Glueck, 1950; N=1000), testámos se (1) os riscos périnatais previam estatisticamente a sensibilidade, (2) a sensibilidade operava tanto como fator de risco como fator de proteção para o comportamento antissocial e criminal, moderado pela qualidade do ambiente familiar, e (3) os riscos precoces tinham uma relação direta com o comportamento antissocial e criminal – controlando estatisticamente pelo autocontrolo, QI e temperamento. Os resultados providenciam evidência de que os scores de risco perinatal não estão relacionados com o traço de sensibilidade, CA, ou número de detenções. Não foi encontrada interação significativa entre a qualidade do ambiente familiar e o traço de sensibilidade na previsão de CA na adolescência ou detenções na vida adulta.

Resultado dum estudo individual conduzido durante o primeiro ano de doutoramento, com o apoio/colaboração do orientador (Alexander T. Vazsonyi).

 “Criminologia Desenvolvimental e seus Descontentamentos”:  Uma Revisão Meta-Analítica Qualitativa (Apresentação Oral 1)

Sumário

A Criminologia Histórica está a ganhar impulso: na promoção da compreensão da investigação atual e auxiliando no estabelecimento de direções para o futuro (Dooley & Rocque, 2023). Piquero (2023) narrou a “cápsula do tempo” da Criminologia Desenvolvimental (CD) através de pontos de viragem. No entanto, poucos estudos sobre a história da CD são baseados em dados (por exemplo, Cohn et al. [2020] quantificaram as citações dos autores) e ainda menos estudos utilizam publicações como dados. Informado pela arqueologia do saber de Foucault (1969), este é um estudo documental dos artigos (N=14) contidos em “Criminologia do Desenvolvimento e os Seus Descontentamentos” (Eds. Sampson & Laub, 2005). Todos os enunciados dentro dos artigos foram codificadas e analisados tematicamente.

As principais estruturas discursivas encontradas são eixos polarizados no discurso científico: categorialismo – dimensionalismo, estabilidade – mudança, persistência – desistência, e conceitos de “desenvolvimento”. Na interseção destes eixos detetados, formam-se os temas para as condições de emergência para a “desistência” como objeto de estudo e para a rejeição da (1) previsão precoce do crime e (2) a persistência ao longo do curso de vida (Moffitt, 1993). Em conclusão, a mudança de uma persistência “verdadeira” e previsível ao longo de todo o curso de vida para a aceitação da desistência do crime como facto universal da Criminologia era evidente já em 2005. No entanto, os relatos históricos existentes omitem isto. Na “cápsula do tempo” da CD, 2005 deveria ser incluído como um ponto de viragem – entre 1993 e 2012 – porque a persistência ao longo do curso de vida de Moffitt (1993) deixou de ser aceite como uma “verdade” científica.

Resultado do estudo conduzido no âmbito da minha dissertação de Mestrado. Este estudo está a ser trabalhado em formato de artigo, a ser refinado em colaboração com o Dr. Dooley – Diretor do projeto de História Oral da Sociedade Americana de Criminologia.

 

 Alunos Ciganos como Alvos de Controlo Social Discriminatório: Racialização da Expropriação de Conflitos  num Contexto Escolar Europeu (Apresentação Oral 2)

 Sumário

O povo Roma é um grupo étnico-racial que pode ser encontrado em todo o mundo. Este grupo constitui a maior minoria étnica na Europa (EU MIDIS I e II). Este povo está na linha da frente da opressão histórica e das desvantagens sistémicas na Europa e nas Américas.

Neste estudo, desenvolveu-se uma etnografia de investigação-ação para compreender as desigualdades educativas e os mecanismos de controlo social que têm como alvo os alunos Ciganos dentro dum agrupamento escolar numa comunidade suburbana na Europa.

Utilizando uma abordagem multi-método, recolhemos discursos de múltiplos atores numa comunidade escolar , tanto pessoas Ciganas como não-Ciganas. Partindo dos dados etnográficos, interpretámos os processos que formam o “insucesso escolar e problemas” dos alunos Ciganos. Analisando os dados qualitativamente, emergiram três temas principais quanto aos mecanismos de controlo social direcionados para os Ciganos neste contexto: “expropriação de conflitos” racializada (Christie 1977); anticiganismo em meio escolar; e projeção de racismo/violência (Girard 1982).

Nesta apresentação, foquei-me no processo de racialização da expropriação de conflitos nas práticas de disciplina escolar, identificando as suas características: centralização e concentração disciplinar; processo disciplinar inquisitorial; disciplina “exclusionária”; foco nos fins punitivos; discricionariedade e seletividade na aplicação de regras escolares. Estes elementos sustentavam interações diárias discriminatórias. Paradoxalmente, também criavam um sentido de justiça no corpo docente e não-docente de etnia maioritária – acabando por subjugar os alunos Ciganos.

Apresentei parte dum artigo que já tinha sido publicado em periódico científico internacional revisto por pares na área da Criminologia (pode ser requisitado o artigo  completo, no caso de interesse, contactar-me).

 

     

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